Entrevista ao Shihan Masafumi Sakanashi: O legado de um mestre

Entrevista ao Shihan Masafumi Sakanashi: O legado de um mestre

Por Pequeños Universos
Tradução para o português por Fernando Sanchez.

Quando fundamos Pequeños universos em setembro de 2011, – blog sobre filosofia e prática do Aikido -, uma das primeiras coisas que fizemos foi olhar para a abertura de uma seção para publicar entrevistas com grandes mestres. Nos concentramos então a produzir conteúdos para essa e outras sessões. A pesar de nossa vontade decidida por iniciarmos esta nova publicação – empenho que nos conduziu a elaborar uma grande lista de candidatos a serem entrevistados – sempre soubemos que a primeira entrevista que publicaríamos seria com nosso Shihan.
O momento propício para fazer as conversas, entretanto, nos apareceu no início de janeiro de 2012. Uma semana depois do Shinnen Geiko (1), fizemos a primeira interpelação ao mestre Masafumi Sakanashi.
Essa conversa ocorreu num sábado ao meio-dia na oficina administrativa do Seiki Dojo (2), durante uns quarenta minutos antes da regular aula do Sensei. Alguns dias depois ocorreu uma coisa espontânea e informal com o mestre: jamais esqueceremos o conversado naquele restaurante, a vivacidade de seus gestos, o espírito generoso e franco com que ele nos fez perguntas, com o qual nos brindou como que se nós fossemos seus companheiros.
A segunda interpelação foi dia 4 de fevereiro nas proximidades da Casa Central do CDA, durante os 60 minutos antes de uma aula comemorativa na qual honramos sua graduação como 7º Dan Aikikai.
Existem pessoas no mundo cuja conversa não para despercebida. O Sensei Masafumi Sakanashi era uma dessas pessoas.
Ao evocar esses encontros com ele, vêm a nós muitas imagens: A energia que concentrava suas mãos, o fundo de equilíbrio que se percebia de seu olhar, seu sorriso. A reportagem aborda temas tão variados como: o início de sua prática no Japão, sua condição de aluno, a identidade de seus professores principais e companheiros de treino, os inícios do Centro de Difusão de Aikido, sua metodologia de ensino através dos anos, o objetivo que deve perseguir-se na prática do Aikido, as rupturas e aberturas de novas escolas e, entre outras, os benefícios do Aikido para a saúde.
Com o propósito de conservar a naturalidade e frescura da conversa, respeitamos a ordem real na qual se discorriam os tópicos.
Queremos dedicar a edição e publicação desta entrevista aos incontáveis alunos que tiveram um vínculo com Sakanashi Sensei durante os últimos 34 anos.
Também, desde agora, dedicamos esta reportagem à sua família, a seus entes queridos, com reverente respeito.
Muito obrigado, Sensei. Sempre estará conosco.

1ra parte. 07 de janeiro de 2012.

Quando o senhor teve, pela primeira vez, noticias sobre O’Sensei e sobre o Aikido?
Na realidade, sobre a disciplina e sobre O’Sensei, em seu momento, eu não sabia nada. Fui praticante de Judo desde os 9 anos e, depois, entrei no Karate. Viajei para o Japão para praticar e o fiz na linha Kyokushinkai, que é uma escola muito forte. Ao mesmo tempo, estudava na Faculdade de Judo e Quiropraxia, então continuei estudando Judo, acontece que tive um problema de saúde, relacionado com o coração, e precisei afastar-me de ambas as disciplinas; comecei a treinar Tai Chi, algumas outras atividades, e me cruzei finalmente com o Aikido. Mas a história de O’Sensei não me conduziu a esse encontro. Assisti a prática dos professores que lá estavam e me entusiasmei com suas aulas, somente isso. Bem no início, quando comecei, tinha um vínculo muito grande com o Karate de combate, o da forma mais dura que existia, e o uso do hakama e dos praticantes que se seguravam das mãos era para mim uma coisa espantosa. Entretanto, ao não ser possível outras práticas por causa da saúde, me decidi pelo Aikido.
Passou um tempo e, por fim, encontrei Yamaguchi Sensei no Japão. Ele era um dos professores mais fortes que havia no Hombu Dojo. Por isso era 8º dan e, realmente, era fascinante ver como as pessoas o atacavam e como, sem que ele quase não se movesse, saiam voando. Isso motivou meu ingresso muito rápido na modalidade porque, como conhecia Judo e sabia fazer quedas, a interpretação das técnicas não me foi difícil. Por causa disso me fizeram passar pelas faixas tão rápido, até que obtive o 1º dan, a faixa preta.

Sakanashi sensei aos 22 anos, praticando em Kuwamori Dojo.

Quanto tempo levou para obter a faixa preta de Aikido?
Menos de dois anos e meio. Foi muito rápido.

Com que freqüência o senhor praticava?
Praticava todos os dias. E quando voltei a ficar bem de saúde, cheguei a fazer duas a três aulas por dia. A verdade é que ver Yamaguchi Sensei era ver a outra cara do marcial. A cara do Karate era da rigidez, a de virar uma parede com uma mão. A cara do Aikido era mística: eu não sabia porque as pessoas voavam ou porque ficavam no chão imobilizadas. Era uma coisa fascinante e que eu não compreendia. Essa foi, um pouquinho, a busca do Aikido que eu tive.

Em algum momento o senhor era descrente dos movimentos que observava no Aikido?
Não era descrente de alguns, era descrente de todos os movimentos. No início me parecia uma estupidez que as pessoas pulassem, até que me pegaram o pulso e me dei conta do porque, do que havia por trás dos pulos. Mas bem, é lógico: de fora as pessoas tem o costume de julgar antes de submeterem-se a algo; então olha e avalia aos demais. Aikido me ensinou a não julgar. Por exemplo, antes eu julgava tudo; Karate é assim: se te acertam, esquivas do golpe e responde com um soco; aí está, um chute e acabou o problema. Por outro lado, no Aikido você iguala sua posição com o atacante: a situação é a oposta à do outro pensamento.

Com os companheiros do Pequeños Universos tendemos comentar que é difícil ser espectador na modalidade. Acontece que, quando apresentamos o Aikido a alguém, a reação da pessoa é bem curiosa…
Pessoalmente, creio que existem três tipos de pessoas no mundo: existem os que sabem que o mundo está mudando, que ele dá voltas; existem outras que não se dão conta de nada; por fim, existem os que sabem que o mundo está em transformação e que, por isso, fazem alguma coisa para harmonizar com esse movimento. Entre essas últimas pessoas nos encontramos, os praticantes de Aikido. Sabemos que há uma mudança elementar na humanidade, e que essa mudança é gerada pela necessidade própria das pessoas. Poderíamos expressar melhor esse conceito se recorrermos à palavra “tendência”.
O que chamo “tendência” provém de algo que a sociedade, por obrigação, vai moldando. A moda, por exemplo, é algo ao qual as pessoas podem aderir: usar o cabelo de um jeito o de outro, de uma cor ou comprimento qualquer; pode vestir-se com uma casaco com dois ou três botões, e coisas do gênero. Mas a “tendência” é um rumo mais profundo no qual a sociedade, em conjunto, vai se inclinando. Falo de uma forma de trabalho ou uma forma de vida.
Então, creio que o Aikido pode somar-se a uma “tendência” para que a sociedade deixe de ser tão competitiva. Muita gente, faz 30 ou 40 anos, busca solucionar com violência as coisas. Falavam: “bom, ele é forte; eu treino mais intensamente que ele para enfrentá-lo, para lutar com ele e vencê-lo”. Esse era um pensamento típico. A reação desse tipo de pensamento terminou, mais ou menos, fazem quatro décadas. Logo começou uma evolução para uma mudança; essa evolução é a “tendência” da qual falo.

Voltando a seus inícios como praticante, poderíamos dizer que o senhor considera Yamaguchi Sensei como seu principal professor? Ou teve algum outro professor que considera dessa forma?
Comecei meus treinos de Aikido com Kuwamori Sensei, minha arrancada foi com ele. O professor do meu professor era Yamaguchi Sensei. Eu sigo a linha dele e seus princípios.

O que lhe chamava mais a atenção durante seu período de estudante?
O que me era mais interessante era descobrir como “pegar o centro”. Isso era o mais assombroso que havia na prática. Como alguém podia tocar o centro de seu oponente e mover-lo a partir dali? Era espetacular ver e não poder fazer, sentir-se desesperado por não conseguir fazê-lo.

Sentias como Uke (ao receber a técnica), e em base nisso, tentava fazer?
Sim, eu sentia, mas fazer era algo bem diferente. Logicamente, só fazia falta treinar, treinar muito até que, de repente, alguém falava: isso, viu, é isso!

Nessa época se falava sobre a respiração? Era explicado cada detalhe, cada forma das técnicas, como o fazes hoje?
Na realidade, Yamaguchi Sensei jamais explicou-me as técnicas. Ninguém esclarecia nada. Nessa época eu ainda era 2º dan, e falar com um 8º dan, dirigir-lhe a palavra ou perguntar algo, eram coisa que não se permitiam. Com muita sorte, Kuwamori Sensei perguntava algo à Yamaguchi Sensei, e desse modo eu conseguia uma resposta.

Era considerado inoportuno, ou grosseiro, fazer uma pergunta?
Não. O que acontece é que não se podia perguntar. Se a graduação era muito baixa era impossível falar com mestres de alta graduação. O sistema era assim.
Hoje em dia, vem Kato Sensei, que é 8º dan, dar seminário em uma escola, vocês lhe fazem perguntas e ele responde. Isso, há 40 anos, não ocorria. Mudaram muito as coisas. Ou, pelo menos, nesta parte do mundo.

Durante as aulas vocês liam algum tipo de material sobre a disciplina, sobre o fundador do Aikido, ou elas eram sempre práticas e ação?
Eu não sabia muita coisa sobre O’Sensei. Quando vim para a Argentina e comecei a treinar com alunos de Kurata Sensei, eles me ensinaram muito do que é a “teoria” do Aikido. Falava-se de O’Sensei no Japão, sim, mas não se lia histórias sobre ele nem nada parecido. Se alguém fazia muitas perguntas te diziam: “treine!”, “se não treinas, nunca vais entender”. Por mais que se aprenda “teoria” – aqui, teoria, sabiam todos (o que é o Ki, o que é Kokyuho) – não se podem desenvolver os conceitos se faltar a prática. Naqueles primeiros anos na Argentina, aparecia alguém que segurava com mais força do que a habitual e já não o conseguiam mover. Eu me perguntava então sobre o papel da “teoria do Ki”, e tudo me parecia uma farsa: não desejava esconder-me atrás de uma teoria que outros sustentavam mas que, no fim das contas, não podiam realizar. Essa era a pior divulgação que podia ser feita sobre o Aikido. A partir daí começaria a mudar a história do Aikido na Argentina.

Como se passa disso ao feito de você ter escrito três livros? Como foi a experiência de decidir escrever, levando em conta que o Aikido é, fundamentalmente, uma prática?
Os livros que publicamos foram parte de tudo o que é divulgação. Estão dirigidos, antes de tudo, a pessoas que não praticam ou a iniciantes. A idéia é que podem ler e, através desse contato, entusiasmar-se com o que há de diferente no Aikido, descobrir que podem treinar. Evidentemente, os praticantes avançados também podem ler. Na verdade, eu não tenho a autêntica capacidade de ser escritor. O professor Pinkler me ajudou a elaborar o que eu queria transmitir.
Vejam que apenas posso dar aulas e ensinar. Compartilhar as classes já é muito. Minhas capacidades somente dão para isso; o que acontece comigo é que tenho alunos muito bons que sempre me apóiam em tudo.
Com vocês acontece o mesmo: graças ao que estão fazendo, ao jornalismo que empreenderam, possivelmente se logre difundir mais a disciplina.
Aikido é algo que fazemos entre todos. Não é que eu tenha feito algo no passado e que agora o transmita. Todos estamos fazendo Aikido. Os livros em colaboração com Leandro Pinkler, o Dojo, os diversos Dojos, vocês, todos crescemos juntos. Isso é muito bonito no Aikido: ninguém pode fazer as coisas sozinho, e muito menos na nossa arte.

Na sua época de Japão, o senhor tinha um grupo? Fez amizades ou se sentia sozinho?
Sim, tínhamos grupos das mesmas graduações, mas aconteceu o mesmo que acontece aqui. Se vocês se lembrarem de quando começaram a treinar, perguntem-se, então, quantos de sua mesma promoção chegaram, ao fim, à faixa preta? Nós éramos 20 companheiros que saíamos para comer, íamos ao barzinho da esquina falar sobre o que tínhamos treinado durante o dia, como havíamos conseguido, o que não tínhamos conseguido fazer, o que estava mal e que estava bem. Também falávamos sobre o que não conseguíamos agüentar.

A intensidade que caracteriza a Sensei en Kuwamori Dojo naqueles anos.

Conversavam bastante sobre a prática…?
Todos os dias. Não havia momento em que não falássemos sobre Aikido. Mas o problema está em que, depois, desses companheiros vão ficando cada vez menos, até que se conserva somente um ou acontece como comigo hoje em dia, que não tenho nenhum companheiro dessa época que continue treinando. É o habitual. Na CDA, a cada mil faixas brancas, somente um chega na faixa preta.
A Constancia de ter chegado à faixa preta, de descobrir que somente foi dado o primeiro passo no Aikido e continuar praticando tem poucas pessoas. De cada cem 1º dan somente um vai chegar ao 4º dan.

No geral vemos que muitos graduam em 1º dan e abandonam, depois de pouco tempo, o treinamento. Qual sua outra opinião sobre essa evidencia?
Sabe porque isso ocorre? Porque esses praticantes não fixaram outra meta. Em dois minutos contarei uma história, antes de começarmos a aula. No ano de 1960, quando John Fitzgerald Kennedy assumiu a presidência dos EEUU, o pessoal da NASA fixou uma meta para essa década que iniciava: queria que o homem chegasse à lua. Cientistas, pilotos, a equipe de pessoas que trabalhava com eles, desde o que servia café até qualquer dos profissionais compartilhavam aquela meta que fora imposta. Em 1969 o objetivo foi cumprido. No ano seguinte, a NASA teve a pior de suas crises. Enfermidades que afetavam seu pessoal, indivíduos que se suicidavam… O problema já não era que o homem chegasse à lua, essa havia sido uma força empreendida por todos e concluída. A partir do momento que chegou o primeiro astronauta na lua já não havia mais o que fazer: haviam perdido sua meta e terminado, de algum modo, com todos seus trabalhos. Muitos se esforçam para chegar à faixa preta… A pergunta é “para que o fazem”, “com que propósito”. “Para que serve chegar se não se sabe o que se fará com isso?” A idéia certa, para mim, é que chegar ao 1º dan para começar Aikido, para apenas começar a entender o que é Aikido.

Ou seja, que muitos praticam com o objetivo equivocado…
Se o objetivo é chegar à faixa preta para mostrá-la aos demais, então está equivocado. O que fica depois disso? Quando entendam e interpretem o que serve ter chegado a esse ponto, recém estarão no caminho. Desse modo sim, serve ser 1º dan, porque o objetivo está planejado de outra maneira. Mas, igualmente, é muito normal que aconteça o que lhes conto; acontece aqui e em todos os lugares, porque se perde certo grau de objetividade quando alguém só está focado unilateralmente em algo. Suponhamos que conquistes uma garota bonita, com determinadas características que a fazem fora do comum para você. A conquistaste. E a partir daí o que acontece? Porque se o problema era somente conquistá-la, o lograste e concluíste tua meta. Ou seja, que a deixas e vai procurar outra garota, mas a você o que te atraía era a emoção da conquista, não a garota em si. Há que pensar nisso e replanejar, se necessário, nossos objetivos da prática.

Nós o ouvimos dizer que com a “conquista do centro” ocorre algo parecido: “O que vão fazer a partir do momento que tiram o centro do oponente?”, o senhor perguntou em alguma oportunidade. Continuamos fazendo essa pergunta…
Não saberão até encontrá-lo. O divertido em tomar o centro do companheiro é que, quando o consegues, o podes imobilizar. Mas na verdade é que faz falta saber “para que o imobilizarás”.

2da. parte. 4 de fevereiro de 2012.

Nas oportunidades em que regressastes ao Japão, o durante os seminários internacionais organizados pelo CDA ou outras instituições, o senhor encontrou algum companheiro do seu início de prática? Se encontrou, como foram esses encontros?
Desde que vim para a Argentina tive a oportunidade de encontrar, por exemplo, um companheiro da mesma promoção daquela época: Héctor Flores, que é aluno do Sensei Kurata. Foi durante a época do Kobukan Dojo, que ficava nas ruas Tucumán e Montevideo (Buenos Aires). Praticamos juntos muito bem. E, há pouco tempo – uns 3 ou 4 anos atrás – encontrei Yasuno Sensei. Yasuno Sensei é meu sempai, mas praticávamos muito juntos nas aulas de Yamaguchi Sensei. Hoje já é um grande mestre, claro. Da mesma época nossa era, também, o atual Doshu. O Doshu Moriteru Ueshiba é 4 anos mais velho que eu.

E, que recordações tens dos treinos com Yasuno Sensei?
Yasuno Sensei era uma pessoa muito eficaz e prática. Em sua técnica não haviam muitas voltas. Repito que estávamos todos muito concentrados em achar a forma de “pegar o centro”, em encontra o modo de trabalhar sobre o que Yamagushi Sensei mostrava. Na realidade é que não tenho lembranças muito específicas de nada, porque o grau de concentração de cada um era tal, o desejo de encontrar o que Yamaguchi Sensei deixava era tão grande que, na verdade, não nos preocupáramos muito o que o outro estava fazendo. Nossa prática consistia nisso ou, pelo menos, isso é o que acontecia comigo. E mais, quando voltei para a Argentina, o único que fiz nos primeiros dez anos foi praticar exclusivamente isso. Ensinava, mas praticava o que havia aprendido com Yamaguchi Sensei, não tinha outra coisa em mente.

Com relação aos seminários realizados no CDA ou algum outro internacional, o que significa para o senhor organizá-los e/ou participar deles?
Nos primeiros anos, desde minha chegada à Argentina, me propus trabalhar técnicas muito fechadas, à maneira do Yamaguchi Sensei. Explicando-as, logo me dei conta que ninguém as entendia. Naquela época éramos três professores que difundíamos o Aikido: Miyasawa Sensei, Kurata Sensei e eu. As técnicas de Kurata Sensei eram o inverso das minhas, bem abertas. No fundo, não é que não nos entendíamos senão que em muitas coisas nossas práticas eram bem diferentes. Isso nos levou a uma ruptura. Ele é meu sempai e o respeito como tal, mas não gosto da forma de trabalhar que ele tem. Hoje em dia, todo o Aikido que se pratica na Argentina deriva de algum de nós três. O nome que se fale não importa. “Eu sou o representante de…” não importa: o Aikido argentino sempre guarda a semente de alguma das três origens. Salvo, claro, que o praticante que se considere tenha vindo do exterior.
Agora bem, a diferença que vejo entre isto que lhes conto e os seminários é a seguinte. Quando comecei a ensinar as técnicas com o estilo de Yamaguchi Sensei, me custava muito transmitir o que era o “centro” para os iniciantes. Foi assim que comecei a ensinar ao contrario: trabalhava as técnicas mais abertas para, depois, ir fechando-as. O que fazia? Procurava formas de ensino alternativas a todo o momento. Vamos a algo específico: a um Nikkyo (chave do Aikido), por exemplo. O fazia mais fechado, mais aberto e super aberto, de três ou quatro formas diferentes, para que fosse aproveitado pela maioria das pessoas e que cada um interpretasse da sua maneira. Então, fazia os “shihonagues” (técnica do Aikido) mais abertos, mais fechados e bem abertos. De acordo com as turmas, dava técnicas de diferentes formas. Esta experiência a levei pelos 10 primeiros anos de divulgação, não de um dia para o outro, senão que em uma época trabalhava a técnica mais aberta, em outra épocas mais fechada, e aos alunos de graduação alta as ensinava mais fechadas ainda.

Júri composto por Miyazawa sensei, Kurata sensei y Sakanashi sensei. Pioneiros do Aikido na Argentina

O senhor foi experimentando com isso?
Claro. Foi uma forma de ver de que maneira as pessoas podiam interpretar mais rápido o Aikido. Mas temos um contra, e é que o Aikido muito aberto, com movimentos amplos, deixa de ser marcial; é um Aikido mais parecido a uma dança, com a qual se converte em uma ginástica, um exercício, uma arte que outros artistas marciais – nesse momento – não respeitavam. Me refiro a época que vai de 1978 à 1980.

Muito coreográfico?
Sim. Então começamos a quebrar um pouco essa matriz pela qual, desde outras disciplinas, não se respeitava o Aikido; e, de algum modo, tinha que terminar com isso para que as pessoas compreendessem o significado de nossa arte marcial. Enfatizei trabalhar as técnicas bem fechadas, e assim, tive que mudar a ideologia.
Para quem não conhece o tema, não entendem o que é uma técnica fechada nem o que é uma técnica aberta, quero explicar que, quanto mais fechada for a técnica, menor é o movimento. Ou seja, que o movimento vai diminuindo, diminuindo e chaga ao ponto que é tão fechado que custa identificar de fora, parece como se um não se movesse e o outro – Uke (quem recebe a chave) – saísse “voando”. Isso provoca surpresa no espectador, que diz: “mas isso, de onde saiu? O que aconteceu?”

Em seminários como os de Hiroshi Kato Shihan, por exemplo, parece acontecer o que estás nos descrevendo: a técnica é tão fechada que não se enxergam os movimentos.
Claro, Kato Shihan é muito fechado… Aí está o interessante para aprender de professores assim.

Poderíamos dizer que continuas aprendendo nos seminários? Como é a vivencia que tens deles?
Aprendo muito com eles. E espero também que os faixas pretas aprendam disso. Na minha época de início de prática as coisas eram muito diferentes; hoje em dia, em um seminário te ensinam a pegar a mão de um modo ou outro, a colocar os pés ou o corpo em determinada posição, a controlar a distancia. Isso não existia antes; tudo era olhar e aprender da observação. Se não captavas algo, o perdias.

Daí a necessidade de concentração como a que o senhor mencionou antes…
Se requeria muita atenção para poder aprender. Estamos acostumados demais, nesta época, a que nos ensine tudo e que nos dêem resolvido. Podemos perguntar, então, se esta época é boa ou ruim. Acredito que para algumas coisas é boa, no entanto, a realidade é que os alunos deixaram de prestar atenção. Numa prática de Aikido é preciso observar muito os movimentos, é preciso analisar o que se faz com os pés, a distancia entre nague e uke, a intenção colocada, em fim, é preciso captar todo o sentimento. O aprendizado é lento porque a pessoa vai desenvolvendo, deste modo, coisas internas, até identificar os diferentes momentos da técnica.
Agora, se nos ensinam tudo, se nos mostram cada detalhe, o que acontece é que aprendemos muito mais rápido mas ficamos vazios. Se nos perguntarmos o que é bom e o que é ruim dos seminários que falávamos antes, acredito de início que, quando vêm diferentes professores, vocês têm a possibilidade de ver as diferentes formas em que as técnicas são executadas. Não existe somente uma forma, não existe somente a minha. Meus alunos podem aprender dos professores que vem. Existem varias formas, e é assim que se enriquece o Aikido.
Se eu quisesse fazer um grupo de alunos somente para mim, não traria nenhum professor de fora, os fecharia e diria “isto é Aikido, o que eu faço”. Mas não desejo aposar-me de meus alunos. Então, meu trabalho é, metodicamente, que vejam o Aikido de todos, que cada um tenha o direito de eleger. Isso me parece o mais coerente. Assim, existem grupos de alunos que aprenderam comigo há alguns anos, e que continuaram sua prática com outros grupos, e me parece correto. Eu não quero trabalhar com alguém a vida toda, e que me fale “não gosto do que ele faz”. Qual seria o sentido de ficarmos juntos? A lógica é que se praticamos o mesmo, vamos para o mesmo lado. É o que eu busco, o que vocês buscam: compartilhar um caminho. Mas se compartilhamos somente para buscar uma graduação, melhor não fazer. Qualquer outro professor a dará igual. Isto nos possibilita que o pessoal que pratica Aikido tenha uma abertura mental grande, e que possa fazer um Aikido mais desenvolvido. Para isso servem os seminários. Quando alguém fica focado nos seminários compreende que não se trata simplesmente de trazer um professor; é preciso pensar que esse professor que será trazido irá afetar o grupo de praticantes por um período de tempo que vai, pelo menos, de 3 a 5 anos. De que forma os alimentará, qual será a semente que plantará em cada um? Não é algo tão simples como pode parecer. Cada professor tem que vir varias vezes para que os alunos possam entender a idiossincrasia do que ele quer transmitir. Assim é como se cultiva uma semente que ficará em cada um. Meu trabalho é organizar os seminários para que muitos de vocês possam nutrir se com eles, e assim logrem uma amplitude mental maior.

O que nos pode dizer do momento em que foi fundado o CDA (Centro de Difusão do Aikido)? Em que ano foi montado o primeiro Dojo?
O primeiro Dojos foi montado em 1978. Cheguei na Argentina em junho desse ano. A partir daí começamos em Burzaco (que neste momento era a sede central e agora ficou como a matriz do CDA). Assim nasceu o Centro de Difusão. Aikikai Sakanashi Dojo foi o primeiro Dojos, exclusivo de Aikido, que tivemos em nosso país. O que ocorre é que não o informei ao Japão por respeito aos meus superiores daqui. Kurata Sensei tinha 10 anos a mais que eu no país, e com Miyasawa Sensei era mais ou menos o mesmo. Entretanto, eles davam aulas em um clube, e não em um Dojo privado, como o que eu levei um tempo construindo. Finalmente, declarei a existência do dojo quase 11 anos depois de fundá-lo.

Conservas algum aluno daquela época?
Sim, Omar Parma é aluno daquela época. Celestino Ferro, Leandro Ferro, Claudio Herrera e quase todos os 5ºs e 4ºs dans são daquela época. Muita gente parou de treinar, mas têm sua lógica: eu tampouco sabia ensinar. Chegavam à faixa preta porque os espremia. No pessoal, fui adquirindo a experiência de ensinar com o passar dos anos, assim que, se conseguiram a graduação de 1º dan, na verdade, foi mais mérito deles do que meu. Todos vamos nos “aperfeiçoando” no caminho.

Com relação ao Aikido e a saúde, quais são os benefícios que, segundo o senhor, nossa modalidade aporta ao bem estar das pessoas?
Sobre os benefícios que o Aikido possui para a saúde posso lhes contar centenas de casos. Muitas pessoas recuperaram problemas de saúde através da prática. Entretanto, creio que o Aikido, mais que curar, é ampliar a capacidade das pessoas. Isso não quer dizer que as converte em boas ou ruins. Como dizia Facundo Cabral, “o que é tonto aqui, é tonto lá”, não muda nunca. Então, o que é inteligente, o que é ruim etc., seja a mentalidade que for, não vai mudar por conta do Aikido; o que produz a mudança é que essa pessoa tenha vontade de, através do Aikido, transformar-se. As pessoas amam o Aikido e começam a mudar porque também se amam a si mesmas. Eu digo “gosto disto”; então, como gosto, quero mudar o seja necessário para continuar fazendo, para poder continuar praticando. Agora, se nos aprofundarmos sobre a atitude mental, porque ou como nos ajuda o Aikido? Nos ajuda porque, em um primeiro momento, por mais que nos digam que não competimos, a pessoa entra no tatame e compete, isso é o que se faz até, pelo menos, faixa preta. Quando chegam ao 1º dan, alguns alunos tem um “click”, apesar de que outros demoram um pouco mais para passar por isso. Mas esse “click” ocorre quando vamos ao dojo, deixamos de nos bater com o outro, deixamos de lado o ego e o que fazemos é tratar de trabalhar mais relaxados, menos tensos, menos com atitude de chocar com o outro. Aos outros isso não acontece. Pensam: “agora sou faixa preta, assim que não vai me tirar do lugar” e, desse modo, continua trabalhando o ego. Por isso digo que o Aikido não muda as pessoas. Agora, se logramos que a pessoa procure trabalhar com o ego porque quer modificá-lo, ela o faz. Através do Aikido consegue fazê-lo, porque quando se relaciona com os outros, de alguma maneira aprende a suportar mais, de algum modo trata de compreender melhor o outro, que é o que fazemos a partir de um katatedori (segurar o pulso): simplesmente, se o companheiro segura o outro com muita força, e o outro não consegue se mover, podem compreender essa situação de várias maneiras. Uma delas é pensar, no caso daquele que está sendo seguro, “eu sou forte e, por isso, não podem me mover”. A outra é pensar “sou mais graduado, tenho mais força que ele, mas, também, tenho outro modo de vida, por isso não me movem; então tenho que usar minha força para ajudá-lo a melhorar sua técnica. Do contrario, se uso minha força para que ele não faça a técnica, o único que ganho é alimentar meu ego. Temos várias mentalidades para pensar a partir da mesma circunstância.

Um dojo, quase por definição, é um âmbito de união onde se encontrar caminhos; entretanto, vemos que cada dia se abrem mais dojos. Alguns são o resultado de rupturas de grandes escolas. Então, essa separação é necessária? É algo que acontece naturalmente para, de algum modo, tornar possível a união?
Não são mais dojos que se abrem, são mais escolas… Essa ruptura que vocês se referem não teria que ser algo natural. Todo aluno que não reconheça seu mestre, que queira ignorá-lo e abrir sua própria escola ou, por exemplo, representar alguém de fora, nunca vai entender o coração do que está aprendendo porque está quebrando uma regra de princípios. Há um principio que indica, por exemplo, que uma pessoa não pode negar seus país. Um pai, uma mão, podem ter um defeito ou outro; outro casal de país pode ter outras virtudes. Ninguém muda seus próprios país por conta desse último casal. Seus país são seus país, seja na vida ou em uma arte marcial; são as pessoas que te ajudaram a dar os primeiros passos, a fazer a primeira queda. Gostemos ou não, fomos construídos assim. Pode ser que, mais tarde, entremos em descordo com nosso país. Porém há uma falha enorme em colocar a culpa nos demais ao invés de dizer “posso mudar e transformar-me”. Quando seguimos nosso ego, dizemos “eu entendo isto do Aikido e não aquilo, assim que agora quero deixar meu mestre e ser representante de fulano”.

Então, a raiz das rupturas recentes são o ego?
O ego, a ambição de poder, a ambição das pessoas. Infelizmente, muitas pessoas, quando se separam e abrem suas próprias escolas, o fazem porque tem 20 ou 30 alunos que os seguem. Acreditam que contar com isso os converte em mestre de seu dojo. Sempre falo que são como “o rei sapo de um charco”: no charco são reis, no dojo lhes dizem “sensei, você, que maravilha”, “o vi praticar no seminário e és melhor que qualquer outro graduado, você é o melhor”. E o rei sapo sai e responde (gesticulando): “você acha?”, “você acredita?”. Finalmente, o resultado disso tudo é que fala “bom, então eu posso dirigir minha escola”. “Qual a diferença entre ter 2.000 alunos e ter somente 30? Uma coisa como a que estamos comentando, guiado exclusivamente pelo ego, pode destruir a vida das pessoas que realmente estão dedicando a vida ao Aikido. Ao mesmo tempo, tampouco é boa a atitude dos que vão e, simplesmente, beijam os pés do professor. “Não Sensei, você é o melhor professor do mundo”. Pensam que o professor vai lhes graduar mais por isso, estão se sujeitando a isso. Essas pessoas são as que menos compromisso estabelecem com o Aikido. Somente se ocupam de alimentar o ego do professor para obter uma posição melhor. Mas depois, quando termina a “empolgação do Aikido”, por assim dizer, fazem natação, por exemplo, o qualquer outra atividade. Não tinham um verdadeiro compromisso com a modalidade; só queriam se posicionar em um bom lugar. Sem um mestre não é capaz de ver essas coisas, tampouco seus alunos verão. No Japão, com respeito a isso, há um ditado que diz: “vaso quebrado e tampa quebrada, nenhuma das duas serve”.

Esse processo de ruptura também se deu, acreditamos, na fase final da vida de O’Sensei. Qual sua opinião a esse respeito?
Acontece em todos o lugares nos quais há seres humanos. Mas O’Sensei viveu exatamente isso, porque não chegou a ter um grande número de alunos. Teve, apenas, cerca de 10 alunos que ele mesmo criou, mais nada.

Estamos pensando, por exemplo, em que foram surgindo linhas como a de Iwama e outras, no sentido de desprendimentos que não se firmaram ligados diretamente ao Aikikai…
Sim, mas há um problema com isso. No Japão existe uma expressão que diz “tatemae, honne”. Honne (本音) é o que penso no meu hara, tatemae (建前) é um pensamento mais diplomático. Por exemplo, no caso de Iwama que mencionaram, Saito Sensei cuidou de O’Sensei até a norte. É certo que a linha de Iwama é um desprendimento, mas Saito Sensei seguiu sempre as regras do Fundador tal qual eram. O Doshu Kishomaru Ueshiba, o pai do atual Doshu, foi uma pessoa que também manteve as regras de O’Sensei. Entretanto, viveu uma época diferente, um momento diferente do Aikido. Foi a época em que a modalidade começou a crescer e se expandir; ele defendeu o sistema e deixou tudo planificado para o atual Doshu. Talvez tinha algumas diferenças com Saito Sensei, mas ambos se respeitavam (isto é “tatemae”). O caso do Ki Aikido, outro dos desprendimentos, foi diferente. Tohei Sensei era parente do O’Sensei. Quem sabe teve mais a ver com política familiar do que com política do Aikido. Depois tivemos o caso da Yoshinkan, uma das primeiras linhas que se abriram, contra isso não se pode fazer nada. Suponho que hoje, no Japão, existem inúmeras escolas; usam o nome do O’Sensei mas não necessariamente pertencem ao Aikikai. Isso pode ser livre, mas na realidade nosso trabalho é defender a linha de Ueshiba Sensei. Aikikai faz isso. Eu estou nisso, estou nessa linha.

Finalmente – e antes da aula comemorativa que vamos compartilhar – o senhor quer comentar algo sobre sua nova graduação?
Kato Sensei foi quem fez a tramitação para que me outorgassem o 7º dan. Acredito que ele, vendo há quantos anos eu estava com o 6º dan, disse “já está na hora de se graduar como 7º dan.” Ele viu como lamentável, suponho (em tom de brincadeira), e fez a solicitação ante o Doshu junto com Osawa Hayato Sensei, do Hombu Dojo. Pediram para que me fosse outorgado o 7º dan e o Hombu Dojo aceitou. Assim que não há mérito meu nisso. O único mérito é a Constancia, é ter ficado, durante todo esse tempo, sempre ensinando. Não há outro motivo. Não acreditem que, de agora em diante, poderei levantar um caminhão ou fazer um carro voar. A pessoa se torna um bom 1º dan quando consegue o 2º dan. É um bom 2º dan quando alcança o terceiro. Então, quando eu for 8º dan, dentro de 15 ou 20 anos, poderei lhes dizer que esse é meu 7º dan. Até lá, não é algo tão importante.

Sakanashi sensei em comemoração de su 7mo. dan. Esta foi a sua última aula multitudinária.

Então, o senhor é um excelente 6º dan…
Ha, ha, talvez seja assim. Não sei, realmente. Pelo menos, parece que Kato sensei acreditou nisso ao me recomendar para o Hombu Dojo.

Esta segunda e última parte da entrevista com nosso Shihan concluiu, como nos referimos no início do artigo, minutos antes da aula comemorativa por seu 7º dan. Naquela ocasião se confraternizaram mais de cem praticantes em cima do tatame do Seiki Dojo. Foi uma tarde de intenso calor, mas de uma alegria e um compromisso máximos.
Felizmente, temos bastante material fotográfico e filmes que o atestam.
Contudo, como esquecer os momentos em que se foi parando seu olhar sobre cada um dos que ali estiveram? Quem não percebeu essa intenção, sem dúvida, não esteve atento durante a aula.
Também queremos lembrar, não sem tristeza hoje, a firme intenção que tinha de seguir colaborando com Pequeños Universos. Havia lembrado com esta equipe jornalística num ciclo de conversas.
Ninguém poderia supor que, seis dias mais tarde, Shihan Masafumi Sakanashi abandonaria este mundo para seguir praticando em algum outro lugar.
Novamente, desde o mais profundo de nosso hara, queremos dizer: muito obrigado, Sensei!

Notas:

(1) Shinnen Geiko é a primeira prática de Aikido do ano. No Hombu Dojo, Japão, se realiza às 00h00 de primeiro de janeiro. Em Buenos Aires, o CDA (Centro de Difusão do Aikido) abre suas portas na tarde do mesmo dia com o propósito de comçar a o ano praticando. A entrada nessa aula é livre e gratuita, e sua condução, até janeiro de 2012, esteve a cargo do Shihan Masafumi Sakanashi.
(2) Localizado na Tenente General Juan Domingo Perón 1972/74, no bairro do Congresso, centro da Cidade de Buenos Aires, Argentina.

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